• Thiago Barcellos

A Cinemateca arde: uma tragédia anunciada



Um certo platelminto, desde que assumiu a presidência não fez outra coisa senão atacar a cultura e os intelectuais brasileiros, pulverizando o financiamento e dificultando - e muito - a vida dos que fazem e vivem da arte nessa nossa pobre republiqueta.


Depois de arder como Roma, veio o remendo de Nero: a coorte romana publicou um edito aguardado há tempos pela plebe para tentar resolver todo o imbróglio e a crise da instituição. Como? Incluindo até cobrança de taxa para quem quiser guardar filmes no acervo.


Nosso Walter Salles, cineasta responsável por filmes que marcaram a história recente do cinema nacional, como Terra Estrangeira e Central do Brasil, chamou o chocante episódio de "desastre" e avaliou que não se trata de "um incidente, e sim da consequência de uma política de Estado". "Ao afastar o corpo técnico altamente especializado da Cinemateca Brasileira, o governo criou as condições para essa tragédia anunciada."


Nada de novo, portanto. Ex-funcionários da Cinemateca vinham há meses alertando sobre a situação precária da instituição. Por ter filmes antigos a base de nitrato de celulose, a preservação e a revisão periódica são importantes para evitar incêndios.


Mas, por viver uma severa crise há anos, a Cinemateca, que é controlada pelo governo federal, não tem tido investimentos no setor de preservação. Depois que o contrato de gestão que a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto tinha para administrar a instituição terminou em 2019, funcionários que cuidavam deste e outros setores foram demitidos.


Viu? A história não é nova. Por ter enfrentado diversas crises, a instituição que começou como um clube fundado por intelectuais que estudavam cinema e tinham paixão pela preservação do audiovisual brasileiro já teve de apagar outros incêndios


Mas não acreditem que o malogrado não teve seus cúmplices. Uma tal namoradinha do Brasil, encenou nada menos que duas farsas, dignas dos piores folhetins da TV aberta. A secretária de Cultura que não foi, e a diretora da Cinemateca que também não foi. Em outras palavras: uma instituição na mão de Deus e na cauda do Diabo.


Ao dar cabo no Ministério da Cultura, reduzir a pó as linhas de financiamento culturais e desprezar a Cinemateca - uma das causas do incêndio que destruiu parte do seu acervo -, Bolsonaro cumpre um papel nadinha republicano nessa guerra cultural. Logo, é absolutamente urgente a Cinemateca ser transferida (mesmo que provisoriamente), para o estado ou o município de São Paulo, antes que seja tarde, antes todo o seu acervo finalmente se perca.


Não podendo (por enquanto) ser armada, essa guerra cultural é feita de ataques simbólicos, como se vê nessa batalha das estátuas, dos nomes de ruas e das homenagens que está em curso no país há alguns anos.


É triste mas é isso: queima Museu Nacional; queima Museu da Língua; queima Cinemateca. Só não pode queimar o Borba Gato.

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