• Thiago Barcellos

A deliciosa nostalgia de Michel Hazanavicius



Vira e mexe, O Artista (The Artist, 2011) é reprisado no satélite. Trata-se de um filme curioso, pouco visto, e produzido com uma draconiana proporção de tela (a então chamada “janela clássica"; tela quadrada em desuso na indústria cinematográfica desde meados da década de 50), mudo, e o mais grave: em preto e branco.


Numa era dominada, sobretudo pelo cinema tridimensional em que atores de carne são substituídos por contrafações digitais, uma obra memoralista como O Artista é esse objeto estranho na conjetura atual da sétima arte.


Qual é, afinal, a desse tão badalado filme francês, capitaneado por um ignoto de sobrenome eslavo (Hazanavicius), constelado por nomes nada caros à nossa ambiência de artistas de rostos conhecidos, e que foi laureado em cinco estatuetas Oscar na noite do último dia 27 (incluindo os prêmios principais; Melhor Filme, Melhor Ator e Melhor Diretor).


Para que se responda esta e outras indagações é fundamental que se situe O Artista numa era em convulsão, no ápice da crise aberta da indústria cinematográfica norte-americana: o advento do cinema falado, mais precisamente entre o final dos anos 20 e o começo dos anos 30.


O processo Vitaphone criado pela Warner Bros. à partir de O Cantor de Jazz (The Jazz Singer, 1928) vaticinou a revolução sonora e relegou o cinema silencioso à obsolescência. Chaplin, um defensor do que ele mesmo chamou de "arte pictórica", hesitou o quanto pôde e por muito pouco não foi pavimentado pelo rolo compressor do cinema falado.


Um sem número de estúdios, astros, estrelas, produtores e técnicos tiveram suas carreiras ceifadas por não conseguirem acompanhar a natural evolução da indústria do entretenimento.


O Artista situa-se na eminência desse mundo novo. O filme gira em torno de George Valentin (um irrepreensível Jean Dujardin), que é uma mescla entre os lendários Rodolfo Valentino e Douglas Fairbanks, magnificado astro daépoca do mudo e endeusado por pilhas de fãs. Uma dessas é a brejeira Peppy Miller (Bérénice Bejo, encantadora) que de fã se torna estrela (com pinta do lado à la Marilyn Monroe e tudo) e mesmo assim continua apaixonada pelo astro - este já em franca decadência. O momento em que se conhecem é adverso para ambos: enquanto um sai do anonimato e ruma ao apogeu, o outro, como Ícaro, despenca da glória para o perigeu.


Instigante, iluminado e espirituoso. Uma obra que finge deliciosamente ser um filme pré-1929 numa época em que o cinema sonoro ainda não tinha se tornado comercial. O bê á-bá - ou a "gramática" - usada por Hazanavicius é a mesma usada pelos expatriados diretores germânicos Billy Wilder e Fritz Lang quando estes nos deram os melhores melodramas e as inesquecíveis comédias românticas hollywoodianas de priscas eras.


Uma obra feita com simplicidade e doçura; que homenageia um cinema já distante, sem grandes pretensões teóricas, mensagens intertextuais ou metáforas de correntes subterrâneas indecifráveis.


Para assistir com prazer e nostalgia, como quem lê saudoso uma antiga carta de amor.

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