• Thiago Barcellos

Alex Kidd on the Block



Sim, senhoras e senhores, digo de fronte alta: eu me lembro.


Tudo começou assim: Daniel Dazcal, um engenheiro eletrônico argentino e muito do sabido, deu uma banana para Sharp (onde ocupava a vice-presidência) e foi cofundar a joia dos trópicos, a Tectoy.


Ensolarado, doce e brutal, parecido com um mercado persa. Eis o Brasil na altura de 1989: cheinho de cinemas, mar de camelôs, aposentados nas pracinhas e crianças, a maioria delas "fiscais da Sunab" e todo aquele tipo de manipulação calhorda a que fomos submetidos depois da era dos milicos.


Paqueras de verão entre aquela moçada fina, elegante e sincera, que fazia picadinho dos sulcos dos elepês do New Kids on The Block comprados nas Lojas Americanas.


Afinal, ainda estávamos, mesmo que no finalzinho, em plena "década perdida". Um Brasil largo, proto-cara-pintada, das eleições diretas, às voltas com um desfile de cousas, tiques, gentes e subtextos que o tempo ajudou a explicar em caracteres de computadores TK-85.



O Master System custava um pote de almas humanas. Mas era futurista, sublinhado em curvas de néon, a cara da modernidade - "prafrentex", nas doces palavras de papai.


Na tela chuviscada, pairava um certo Alex Kidd, menino de crânio colossal e que abusava das coreografias cabulosas em meio a uma partida de jankenpô com um homem-dedo.


Fato é que o microcosmo daqueles finais de semana infanto-juvenis que nos apresentavam os pais era belo, seguro, sem boletos.


Os subversivos pós-punk alopraram nas rádios, a inflação era no galope do Pégaso, a ditadura rebolou e o paternalismo estatal começava a ser questionado.


E a gente? Bom, a gente jogava.


Lado ruim da nostalgia: como resistir ao bruto calvário dum inusitado período que aglutinava Sarney, o Muro de Berlim, overnight e a Elba Ramalho na Playboy?


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