• Thiago Barcellos

Animações clássicas dos anos 60 I PARTE 2: "A Mão"



O cinema de animação floresceu de forma diferente nos diversos países do Bloco Soviético, devido às influências culturais, políticas e históricas de cada região. Na República Tcheca, por exemplo, predominou a animação de marionetes, em detrimento do desenho animado, pela grande influência da tradição nacional do teatro de bonecos.


Entre os animadores dessa era, destaca-se Jiri Trnka, um dos mais reconhecidos do país, e é de fato difícil de se entender como é que um cineasta desse quilate possa estar tão erroneamente esquecido.


Jiri Trnka nasceu na cidade de Plzeň, na República Tcheca em 1912 e, desde muito cedo, aprendeu de forma autodidata a arte do entalhe em madeira. Habilidoso, também aprendeu sozinho o fabrico de fantoches, incluindo a criação de seus figurinos.


"A Mão", curta-metragem de animação de 1965, o último filme de Trnka, questiona o papel do artista no sistema totalitário stalinista e critica os métodos de coação e repressão utilizados por esse regime contra seus cidadãos. A obra foi produzida no período anterior à Primavera de Praga, e conta a respeito dum arlequim/oleiro mudo que vive em um mundo completamente autocontido que existe fora do espaço e do tempo. Ele é um arlequim, um bufo, um bobo da corte, mas é também escultor e ceramista - um artista que passa seu tempo fazendo vasos para sua planta favorita.



De repente, sua paz é perturbada e seu pequeno mundo vira de ponta-cabeça. Uma mão enluvada gigante lhe dá uma ordem estrita. Ele deve fazer somente esculturas dela mesma.


No início, a relação dos dois consegue ser pacífica, mas logo se torna violenta assim que nosso pequeno personagem diz 'não'.


A mão então começa a seduzi-lo de várias maneiras, oferecendo dinheiro, elogios, força, erotismo, doutrinação e assim por diante.


A mão tenta de tudo para que nosso pequeno artista faça o que lhe foi ordenado, mas ele ainda se recusa. Por mais que ele tente se manter afastado, a tal mão o agarra e, como uma marionete, ele é preso por cordas em uma gaiola e é forçado a esculpir o que lhe foi determinado.


O personagem finalmente foge e volta para casa apenas para ser morto pela planta que ele tanto amava, porque enquanto ele está tentando se barricar no quarto, a planta cai em sua cabeça e o mata.


A mão então maquia o cadáver para que ele se apresente bem, com as faces rubras. A sequência termina lúgubre e extremamente triste com uma coroa de louros fúnebre sendo colocada sobre o caixão e uma saudação nazista concedendo ao pobre arlequim um funeral de estado, tornando-o postumamente parte do sistema.


O filme foi feito em 1965, época em que a new wave tcheca estava florescendo e muitos filmes críticos e politicamente centrados foram feitos nos Estúdios Barrandov, em Praga.


Em 1969, após a morte de Trnka, o governo proibiu as exibições da obra, os negativos foram confiscados e o filme permaneceria proibido na República Tcheca até a queda da União Soviética em 1993.



"A Mão" é uma espécie de fábula infeliz que reflete todo um ambiente absurdamente restritivo, sufocante e opressor. Trnka foi enviado para prisão por sua desobediência. Ele morreu em 1969 de problemas cardíacos, mas deixou muitas inspirações para vários animadores do mundo.


Ao rever o filme, o que mais prendeu a minha atenção dessa vez foi a sensação de opressão e claustrofobia na decoração da casinha do diminuto personagem. A pequena sala onde a ação acontece é o seu mundo inteiro. E o que choca, apesar da sugestão via analogia, é a invasão pela mão que é uma uma violação completa e degradante desse mesmo mundo.


Trnka foi um grande esteta e o próprio estado da graça do stop motion. Seu "A Mão" é uma peça vital da história da animação e possivelmente um dos maiores e mais assustadores filmes já feitos. Além de um exemplo notável de desobediência civil de um artista indubitavelmente imortal.




7 visualizações0 comentário
GoogleMaps Logo Shadow.png
GoogleMaps Pin.png