• Thiago Barcellos

Animações clássicas dos anos 60 I PARTE 3: "Um Garoto Chamado Charlie Brown"



Charles Shultz foi, indubitavelmente, um gênio. Ele é o pai de seu alter ego, o Charlie Brown, mescla entre filosofia e insegurança, que é o chefe do bando dos guris das famosas e inesquecíveis tirinhas.


Além de Charlie, Schulz deu vida a uma plêiade de adoráveis crianças (e um cãozinho beagle) que, com suas indefectíveis cabeças grandes e corpos diminutos, eram ao mesmo tempo engraçados, estranhos e ternos, além de expressar sentimentos profundos em tiradas espirituosas sobre a condição humana.


No auge de sua popularidade, as HQs dos Peanuts (ou a Turma do Charlie Brown no Brasil), alcançaram cerca de 355 milhões de leitores em 75 países e impressos em mais de 2.600 jornais em 21 idiomas.


Bem antes da animação "modernosa" em 3D, Snoopy e Charlie Brown – Peanuts, o Filme de 2015 - cujo roteiro é do filho do criador dos personagens, Craig Schulz -, uma animação intitulada Um Garoto Chamado Charlie Brown seria a primeira incursão da turma do "Minduim" no cinema, em 1969.


Aqui, trata-se de uma história melancólica e nada sentimental de fracasso contada com charme e humor, a respeito da ascensão e queda de Charlie Brown. Torturado por suas próprias inadequações e a constante lembrança de Lucy de seus fracassos, Charlie espera finalmente ter sucesso em algo: ser laureado em um concurso nacional de soletrar em Nova York - onde a famosa voz adulta "wah-wah-wah" aprova ou desaprova a digamos, expertise dos competidores.

Sua turma (Linus, Snoopy e cia) acompanha Charlie nessa odisseia que, na verdade, pode ser lida como um estudo de emoções conflitantes: medo x bravura, desistência x determinação e vitória x derrota.



O filme trouxe o humor agridoce e um tanto sombrio da história em quadrinhos para a tela grande com momentos memoráveis que incluem (além da hilária prova de silabar), o concerto de piano de Schroeder e a patinação no gelo de Snoopy no Central Park.


Ao longo do caminho, o jazzman Vince Guaraldi e seu trio dão o tom. Guaraldi definiu o som dos Peanuts e ainda soa tão criativo hoje quanto era na década de 1960. As próprias composições são uniformemente brilhantes; é como se Guaraldi e sua tríade de músicos estivessem esperando por essa inspiração precisa.


No final, Charlie Brown estragou tudo, de novo, e como sempre. E isso não é nenhum spoiler, mas uma constante. E em vez de mostrar o triunfo do garoto que venceu o concurso de soletrar, a câmera foca no perdedor. O vencedor é completamente esquecido. Lucy desliga a TV para reclamar da ruína de Charlie a seus amigos. Liga-a novamente e o foco ainda está nele. Isso me mata todas as vezes que revejo o filme; me surge um misto de compaixão e chacota que eu nunca soube bem lidar.



Por sete décadas, entre tirinhas e inúmeros filmes, a Turma do Charlie Brown deixou algumas pílulas de sabedoria que, vez ou outra, eu uso como mantra. Nesses tempos sombrios em que vivemos, eu as tenho aplicado e, eventualmente, caem como uma luva (não necessariamente de baseball):


"Mas o amor não existe para a gente ser feliz?" (Charlie Brown).
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