• Thiago Barcellos

"Animais Noturnos" de Tom Ford: entre a vilania e a alta alfaiataria



Animais noturnos (16), se inicia com uma performance numa badalada galeria de arte. Na obra, bizarro e belo se dão, um erigindo o outro.


Mulheres obesas, nuas em pêlo, transmutam-se em deusas olimpianas do estatuário grego. Essas viram objetos de adoração numa sociedade com fetiche pela imagem. Na instalação, o tal "belo" reverencia o "feio", num pedestal.


Na trama, Amy Adams. Aqui, adornada, maquiada, um doce de coco – afinal, é o alfaiate Tom Ford em ação.


Ela não se dá mais com o marido, herdeiro texano, não-democrata, fruto de uma família de magnatas do petróleo. Seu esposo está arruinado, mas morreria se, nessa sociedade, rasa como piscina de bolinha, os outros soubessem.


Numa noite, a vidinha aburguesada da galerista Susan, a personagem de Amy, se exaspera: ela recebe um pacote misterioso e dentro, um manuscrito de um romance redigido por seu ex, Jake Gyllenhaal, (com dedicatória e tudo). O livro chama-se Animais Noturnos, igualzinho ao filme.


Ousado, o cineasta Tom Ford imprime ao longa pujante impacto visual, criando tomadas no melhor estilo "moderninho". Entretanto, é esperto o suficiente em evitar que suas cenas se tornem belas e ocas. Sua predileção por um cinema magnético advém de sua reputada associação artística com o universo da moda, em especial quando de seu êxito através da marcas Gucci e da Yves Saint Laurent.


Explico: Ford antes de ser cineasta era ator e, bem antes, estilista. Para o bem ou para o mal e também para a maioria, é estranho vê-lo se arriscar atrás das câmeras.


Finalmente, temos a exata contribuição de Ford ao cinema: seu tipo estético vai além dos paletós de abotoamento duplo e bem recortados que Daniel Craig veste como James Bond.


Em Animais noturnos, seu melhor filme até aqui, temos (insisto) Amy Adams, atriz da qual sempre se espera uma faísca de genialidade. Em quadro, o hiato costumeiro: não nos provoca espanto ou repulsa, ou qualquer surpresa.



Mas eis que brota Michael Shannon: aquele olhar mecânico, aquela voz metálica, que pelo excesso da nicotina, parece um cantor de ópera emitindo sua ária favorita.


Entretanto, a trivial interpretação de Aaron Taylor-Johnson foi laureada com a estatueta de Melhor Ator Coadjuvante. À época, esqueceram-se de Shannon, este sim, memorável, o qual faço questão de endossá-lo ao panteão. Seu olhar furibundo de quem carrega um câncer nos pulmões, tem um quê da fúria santa de um Prometeu.


Animais noturnos aponta a miséria do mundo, lançando o espectador numa espiral de vilania e macabrismo e embalado no que há de melhor em desenvolvimento narrativo no cinema contemporâneo.


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