• Thiago Barcellos

Cabernet, vídeo game, Leonora e Millôr




Essa aí é a Leonora Weissmann, artista plástica de renome e dona dum charme sideral. Dia desses, a convidei prum Cabernet lá em casa.


Taça vai, taça vem, Chet Baker rodopiando no vinil, as faces (ambas) ficando rubras. E como sou discípulo do Millôr Fernandes, subscrevo aqui seu estandarte de que se deve beber moderadamente, isto é, um pouco todos os dias. E o amador (mea culpa etílica) que abusa tende a ficar desabusado. Pois foi o que fiz.


"Loló, quer conhecer minha coleção de games?" - disparei, entre um sulco do disco e outro, numa certa intimidade desconfortável através de um apelido que inventei ali na hora.


Ela cede.


Mãos dadas pelo corredor do apê, eufóricos como foliões carnavalescos rumo à Shangrilá. Na meia luz amarela no abajur do quarto, saquei, de cara, um cartucho aleatório da pilha da escrivaninha.



Mal completei o ditongo e fui posto a córner, numa vexatória humilhação.


Não é o caixão, aquele objeto funesto, o recesso do homem, sua última fuga, o derradeiro recanto em que se pode esconder suas mágoas e dores duma vida pregressa, mas sim, senhores, o tapa que levei no focinho.


Leonora, paixão imemorial, meteu a bolsa na axila, o casaco na outra e foi-se. O dito final é que me pulverizou: "Vou chamar a polícia, ô cretino! Polystation com fitinha amarela, vá lá. Mas Dark Castle de Mega Drive? Convenhamos, né?"

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