• Thiago Barcellos

Cinema japonês e a extensão do desastre



A reputação do cineasta nipônico Kon Ichikawa foi consolidada com a obra-prima A Harpa da Birmânia (1956) - filme cimentado no romance de 1946 de Michio Takeyama. A película narra a história de um soldado japonês que desiste da repatriação apenas para permanecer na Birmânia como um monge budista no final da Guerra do Pacífico.


Assim como A Harpa da Birmânia, Fogo na Planície, (1959), seu filme posterior, é também obra humanista. No entanto, ao se debruçarmos com um olhar mais atento, Fogo na Planície parece ser uma descida mais aterrorizante ao purgatório.


A narrativa de Fogo na Planície chega às raias do modesto.


Desenha-se simples: Após o desbarato dos japoneses na Segunda Grande Guerra, estes erram como um séquito de famintos até a fronteira das Filipinas, como uma frente de resistência.



O filme persegue um deles, de nome Taro, um soldado tuberculoso, que é rechaçado pelos hospitais de campanha onde lhe é negado auxílio por não estar doente o bastante.


A narrativa compõe-se de suas lidas erráticas através de montes de entulho esturricado e de sua busca cega por comida.


As “iguarias” vão de capim seco à ervas daninhas – entre outros menus pouco ortodoxos.



Um filme que saltará da trivialidade da cultura massificada a respeito da Segunda Guerra Mundial no cinema por sua crueza, ao passo que em sua estreia foi considerado repulsivo por abordar um tema tão doloroso e fazê-lo de modo tão violento.


Antes de ser um libelo anti-guerra, a obra de Ichikawa é um filme severo, sobre uma nação aniquilada e, assim como no nosso Brasil contemporâneo, vê a si mesma num espelho partido e que mal consegue enxergar a dimensão da catástrofe.

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