• Thiago Barcellos

Conheça "Heavy Metal": a animação cult que conquistou os anos 80



Quem nasceu nos anos 70 e foi tentado na adolescência pelo mundo dos quadrinhos sabe muito bem o que Heavy Metal significou para a nona arte.


Heavy Metal começou como uma série de quadrinhos produzida na França por Jean Pierre Dionnet em 1974. Com o nome original de Métal Hurland, a série foi descoberta por Leonard Mogel, que a trouxe para os Estados Unidos em 1977.


A bem da verdade (excetuando as limitações da década de nascimento), todo fã de desenhos animados deve estar moderadamente ciente de que foi graças ao impulso de Métal Hurlant que autores consagrados como Moebius, Enki Bilal, Milo Manara ou Richard Corben desenvolveram algumas de suas melhores histórias de ficção científica de todos os tempos.



Adquirindo enorme popularidade na América durante seu primeiro ano de publicação, é razoável - aos olhos de como a indústria do entretenimento se move -, que o mundo do cinema tenha sido atraído pela ideia de fazer uma adaptação dos postulados adultos do forte conteúdo gráfico que as páginas da revista mostravam.


O mais estranho é que, embora esse filme de 1981 acabasse sendo distribuído pela Columbia, o capital para produzi-lo veio do Canadá e que as figuras encarregadas de levá-lo adiante junto a Leonard Mogel (editor-chefe da revista), foi um cidadão de ascendência eslovaca chamado Ivan Reitman - cineasta esse que viria a dirigir Os Caça Fantasmas em 1984 .


A animação se assemelha principalmente à revista no sentido de que consiste em vários segmentos díspares, cada um feito por uma equipe criativa diferente de animadores, escritores e assim por diante. (Os quadrinhos também costumavam ter várias dessas histórias em cada edição, a maioria delas generosamente salpicada de violência e sexo.)


Depois de sair dos cinemas, entraves legais envolvendo a trilha sonora adiaram o lançamento do filme em home vídeo por quinze anos (!). Os fãs tinham de se contentar com cópias piratas de qualidade pra lá de duvidosa ou dar a sorte de assistir ao filme quando este raramente passava pelas madrugadas em priscas eras na HBO.



A linha central de tudo isso é Loc-Nar, uma pequena esfera alienígena que ressurge em diferentes formas ao longo do filme e ao longo dos séculos da história humana, não muito diferente dos monólitos em 2001: Uma Odisseia no Espaço de Stanley Kubrick.


Esse estranho globo verde brilhante - que personifica a maldade suprema -, é acidentalmente trazido à Terra por um astronauta como um presente para sua filha. Isso o mata (transformando-o em suco gástrico!) e começa a aterrorizar a jovem, mostrando-lhe uma série de visões aterradoras.



O tal orbe possui o estranho poder de conferir forças, estimular a discórdia, confusão, cobiça, mais ou menos como uma representação dos aspectos negativos da natureza humana reunidos em uma entidade.


Trata-se de uma antologia de seis histórias bizarras, num amálgama de ficção científica, espada e feitiçaria, humor cáustico, violência, sexo (softcore) lascívia pura e simples (mulheres nuas e bem torneadas) e um pouco de drogas, cujas raízes remontam a paranoia pós-hippie.



As histórias envolvem um cínico motorista de táxi resgatando uma garota de mafiosos em Nova York; um nerd que é transportado para o mundo distópico, onde é transformado em um garanhão musculoso; o julgamento de um perverso piloto espacial; uma tripulação de bombardeiros da Segunda Guerra Mundial transformada em zumbis (toda a narrativa se passa dentro de um avião); uma secretária do Pentágono sequestrada por alienígenas; e um conto final em que uma heroína tartamuda enfrenta um governo tirânico de orcs/goblins, onde o horrível Loc-Nar transformou esse povo hora pacífico, em uma horda de assassinos.


Pontuado por um punhado considerável de canções - entre Journey, Van Halen, Nazareth e Black Sabbath -, a trilha sonora ajudou a obra a ser considerada como um divisor de águas no universo da animação.



Sua principal inovação foi a de violar a ideia que vigorava à época sobre desenhos animados “para toda a família”, no melhor estilo Disney.


Heavy Metal, apesar de todas as suas falhas e anacronismos, ainda assim representa uma espécie de refresco no clima estéril da animação contemporânea. Sem dúvida, algo que qualquer fã do gênero tem a obrigação de assistir.

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