• Thiago Barcellos

E agora, José?

Atualizado: Ago 13



Diretor, ator, fotógrafo, maquiador, iluminador, figurinista, cenógrafo, tradutor, produtor. Paulo José fez de tudo no palco, sua primeira casa, em priscas eras do Teatro de Arena, paradigma das artes dos anos 60.


No cinema, explodiu. Desde a sua estreia, que se deu em O Padre e a Moça, de Joaquim Pedro de Andrade, em 1965, ele já se fazia notar.


No entanto, sucesso mesmo, somente um ano depois. É seu homônimo, o também Paulo, em Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos de Oliveira, é que o ator começa a mostrar toda a sua versatilidade.


Em 1969, fez a rapsódia Macunaíma, também de Joaquim Pedro, inspirado no livro de Mario de Andrade. Neste, ele projeta um anti-herói dos mais patifes que nasce preto (Grande Otelo), se transmuta em branco e erra para São Paulo. E, seguindo as convicções da primeira fase modernista na literatura, a obra se torna um dos filmes mais irônicos do Cinema Novo.


Consagrado também na TV, fundou novos formatos, sendo bastante laureado como diretor e ator, marcando a sua imagem de forma triunfante com tipos hilários, de comédia, além de se enveredar pelo mundo infantil com o inesquecível Shazam.


O Mal de Parkinson, que o acometeu por volta de 1993, não o parou. Em 2000, Pedro Bial comprou os direitos de A Controvérsia, de Jean Paul Carrière e o convocou. Aliás, diga-se, uma peça oportuníssima para ser encenada na comemoração dos 500 anos de Brasil. Era a história de uma célebre esgrima teológica (e também política) ocorrida em Valladolid, Espanha em 1551. Era uma obra que consistia numa controvertida questão à época: têm os indígenas alma, como a gente?


Seu personagem, um cardeal, ficava duas horas no palco. Aceitar o papel, segundo contou certa vez, o atemorizou. Anos mais tarde, em entrevistas, entendeu aquilo como um desafio e resolveu que devia topar, enfrentar, meter as caras. E, segundo o próprio, ocorreu uma coisa extraordinária: "Apesar da dificuldade de movimento e da minha fala embaralhada, quando entrava em cena, eu não tinha Parkinson. Todos os sintomas desapareciam".


Nessa terrinha minguada, nesse proto-país que é o Brasil, existiu também um filme chamado Anahy de Las Misiones de 1997, com esse mesmo Paulo José. Obra impressionante e esquecida. Foi dirigida pelo Sérgio Silva e fala duma família que vive de despojar os mortos da guerra da Cisplatina, durante o primeiro império. Paulo, mesmo num papel pequenininho, brilhava como uma supernova.

Sou fã das hipérboles e, como de praxe, não me furto: perdemos ontem José, um monumento. Parafraseando a paráfrase, recorro ao Tom Jobim que um dia evocou um antigo aforismo grego em música: "longa é a arte, breve é a vida".


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