• Thiago Barcellos

Fernanda Montenegro, Eric Rohmer e Almodóvar



Eis aí uma listinha de três belos "espécimes" cinematográficos pra você, leitor honorável e assíduo do nosso blog, que está enjoado dos mesmos programetes de culinária e das comédias românticas esquecíveis da Netflix.


A Vida Invisível (2019)

Dir.: Karim Aïnouz


O longa, assim como no livro homônimo de Martha Batalha, é feérico - e também fere - bem lá no fundo do universo feminino.


No Rio de 1950, Eurídice sonha em ser pianista. Guida, a mais nova, quer desbravar o mundo, viver paixões tórridas. Ela tenta. Foge com um grego. As duas irmãs nunca mais se viram.


Aïnouz, competente que só ele, aborda com simplicidade fulgás, ainda que de forma extraordinária em se tratando de narrativa, um emaranhado de questões espinhosas como feminismo, machismo, estupro, mentira e morte.


Soa puro melodrama, eu sei, mas é a melhor definição que o termo é capaz de compreender no cinema brasileiro.


E há algo de inexplicável por debaixo dos olhos de Fernanda Montenegro, Medeia insuperável.


A descoberta das cartas da irmã, cúmplice de todo o afeto do mundo, e que julgava há muito estar morta, é o emblema da melancolia de uma vida.



Amor à Tarde (1972)

Dir.: Eric Rohmer


Um homem que não vê a traição como falha moral.


Pra ele, a beleza das outras mulheres é a extensão da de sua própria esposa, e jura ser ela a mais bela entre as demais.


Do tédio dum casamento fracassado à tentativa da domação dos seus impulsos sexuais, Frédéric repousa numa Paris de relações rasas mas que ganham estatuto fortemente sexual. Numa cidade coalhada de belíssimas mulheres, suas "presas" não mais lhe são que um afago em seus arroubos adúlteros.


Pra debelar o enfado da vidinha, aceita a farsa, ou seja, lança olhares às mulheres e mergulha numa fantasia onírica e também ambígua.


Quem quer se alienar das brumas de Avalon em que está metido o país, recomendo o filme.


Ao contrário do Brasil, aqui a hipocrisia da burguesia francesa é ao menos elevada ao status de arte.



Dor e Glória (2019)

Dir.: Pedro Almodóvar


De motivos autobiográficos, o filme narra a historia do cineasta Salvador Mallo (Antonio Banderas), em profunda melancolia trazida pela idade.


Em dois tempos distintos, essa pérola de Pedro Almodóvar nos lega dois tempos, o presente decadente de Mallo e sua infância, apinhada de flashbacks que o levam a refletir sobre sua sexualidade, cuja descoberta do primeiro desejo - no caso homossexual - , tem um efeito libertador.


E é aonde reside a criação. E esta, está inteiramente ligada ao desejo. Sem ele, só existe dor.


"Dor e Glória" é um lugar qualquer na imensidão da alma do artista, um mosaico de temas agudos de um criador em crise.


Autobiografia que carrega em si a brutalidade poética do ser e do fazer cinema.


Quantos filmes há num material bruto? Quantos "eus" numa vida? Almodóvar responde.




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