• Thiago Barcellos

Indiana Jones para Mega Drive: "Queimem esse cartucho!"



Minha família sempre foi supersticiosa tanto por interesse quanto por convicção.

E eu, como associado da parentada, acabei herdando os pavores e os presságios.


Sal, por exemplo.


"Sal dá azar!"


Essa era uma frase antiga e sempre dita em tom de sermão.

Mais que isso, lá em casa, sal era um palavrão, uma coisa obscena.


O saleiro lá de casa era guardado como relíquia maligna. Se alguém deixasse cair um grãozinho na toalha era rua na certa.


Todo mundo se precavia.


Me lembro como agora, dum almoço de sábado, pelos idos de 93.

E lá fui eu pedir o saleiro pra pulverizar a minha saladinha murcha. O negócio é que a moça que ajudava a minha mãe nos afazeres, havia enchido demais o vidrinho. E eu, ao sacudi-lo, deixei cair uma meia-lua de sal na toalha.



Bastou isso. Meu avô abandonou a cabeceira da mesa, tentou catar o sal com o guardanapo. O velho louco, suado, desesperado. Esfregava um garfo sem serra na toalha até que a bichinha ficou puída.


"Queimem a toalha!"


Fiquei ali, em pé, vendo todo mundo se levantar da mesa. Aquela polêmica toda. "Seria melhor sacudir ou queimar?". Na dúvida, vovô ordenou:

"Queimem essa maldita toalha!"


O almoço acabou ali. Todos perderam o apetite. Eu incluso. Cabisbaixo, voltei pro meu quarto e dei de cara com o jogo dum certo boneco de pano marrom espetado no meu Mega Drive.


Seu nome: Indiana Jones and the Last Crusade.


Cria bastarda da desenvolvedora U.S. Gold que eu havia ganhado no dia anterior (meu aniversário), e que nada tinha a ver com as peripécias acrobáticas do Harrison Ford na busca pelo Santo Graal no filme homônimo.





Supersticioso que era, saquei de cara que toda aquela confusão no almoço era culpa desse feto de ratazana em forma de cartucho que degradava os circuitos do meu console.


"Queimem esse cartucho!" Eu quase podia ouvir meu avô gritando, veia saltada no pescoço e lançando perdigotos pelo ar.


Da dúvida, fui à cozinha, saquei o isqueiro e fui à garagem. Retirei a gasolina dum galão e fiquei assistindo o pobre arqueólogo Henry Jones Jr. queimar lentamente.


Afinal, mal agouro é mal agouro e não se pode "brincar com essas coisas".


Palavras de vovô.

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