• Thiago Barcellos

Ingmar Bergman, Jorge Luis Borges e a indecifrável memória humana



O cineasta sueco Ingmar Bergman sempre arguiu em seus filmes a respeito de um Deus austero e taciturno, que abandonou a humanidade à própria sorte. Seu Deus é o mesmo que, reverenciado pelo protestantismo dos países nórdicos, é também sua grande obsessão fílmica.


Morangos Silvestres (1957) acompanha a odisseia geográfica - e espiritual - das reminiscências traçadas pelo idoso professor Isak Borg (cujo nome significa, aproximadamente, “fortaleza de gelo” em sueco), em uma viagem na companhia de sua nora gestante Marianne (Ingrid Thulin) de carro pela gélida Suécia no intuito de receber o título honorífico na antiga universidade onde lecionou.


No percurso, além da mudez metafísica, há projeções das personagens de sua juventude que o levam a uma séria reflexão sobre os rumos que sua própria vida tomou. No caminho, dá carona a três jovens, entre eles Sara (Bibi Andersson), cuja índole o fazem recordar do amor de sua vida. Borg regressa ainda à casa de sua mãe, já anciã, para uma conversa definitiva tanto com ela quanto com seu filho Evald (Gunnar Björnstrand), um misantropo que Marianne planeja largar. A conversa é crucial, pois além de poder salvar o casamento de seu filho, mostra ao professor que a vida, ao vê-la por cima dos ombros, lhe trouxe um certo grau de autoconhecimento.


Ele se tornou ciente não somente de sua imortalidade, mas também da sua própria reticência emocional, esta herdada dos pais, e passada inconscientemente por ele como um vírus para o filho.


1) Passado e indulgência


Toda a ação da obra transcorre no espaço de um único dia em que o professor viaja. Na noite anterior, porém, ele tem um pesadelo terrível: há uma rua deserta. Um relógio sem os

ponteiros. Um carro funerário que perde sua roda e deixa cair o caixão. Dentro do esquife, um cadáver. Mas não um cadáver qualquer; o seu próprio cadáver que o leva pela mão à força e o tenta conduzir pra dentro. Finda-se o sonho e começa a viagem e, no caminho, a ideia de um passado fugaz e inútil cruza-se com a ideia da vida. Para os que vão morrer, importa saber como foi a vida, segundo a tradição cristã. E Bergman, filho de pastor anglicano, parece, ele mesmo não se libertar dessa ideia.



A vida de Borg foi um hiato. A memória lancinante leva-nos ao passado dos amores em revés; o amor por Sara, a prima que preferiu se casar com seu irmão, e o amor pela esposa que não lhe soube ser fiel. Há o egoísmo que raramente se abriu para deixar passar um sentimento de indulgência. Paralelamente, sua vida foi um êxito, pois os colegas de universidade vão condecorá-lo. No percurso desse road movie existencial, dois “reencontros” fundamentais: um, com o casal desunido que se detesta, mas não vê forma de se desatrelar, o que faz Isak se lembrar do próprio matrimônio fracassado, o outro é o encontro, já mencionado, dos três jovens que tomam carona com o professor. A moça chama-se igualmente Sara e namora os dois rapazes. Todos esses personagens são projeções das personagens da juventude de Isak, em especial, os dois garotos que discutem a existência de Deus, ao passo que personificam as duas tendências

interiores do professor.


A visita à casa de sua mãe traz também à baila o egoísmo e a indiferença de que Isak é acusado pelos parentes quando jovem. Uma posição alienante, e por vezes egocêntrica, que não impede que os colegas de cátedra o vejam como um grande amigo da humanidade e a seu serviço. Esse caráter que tem a frieza como carro-chefe, mostra-se hereditário, comunicando-se através de várias gerações. Tanto a sua mãe, Isak, e seu filho Evald, queixam-se comumente de estarem vivos. Em Evald, essa recusa de viver chega ao ponto de tirar-lhe o desejo de conceber um filho com Marianne. Esta, por sua vez, representa a própria vida com toda a sua exuberância e felicidade, sempre aberta e disponível ao amor.


Inflexões líricas e beleza plástica à parte, Morangos Silvestres é uma meditação acerca das inquietações de ordem metafísica de um homem solitário que vê o passado em latência insuportável, em confissão biográfica permanente. O empilhamento da memória - ora feliz, ora profundamente trágica - do velho professor, imprime uma asfixiante sensação de reminiscência insone que perpassa seu ser tornando-o um memorial ambulante, um indicador de quão ilimitada, quão irrestrita foi a sua própria experiência humana.


Antes da cerimônia de 50 anos de doutoramento, ainda um último sonho revelador. Ele adormece no carro e é catapultado para uma experiência tão sui generis quanto a sua própria epopeia da vida. Isak é submetido a um exame de uma banca acadêmica. Por algum motivo sombrio, ele não consegue enxergar o que há microscópio (como afinal, desvendar uma vida que já ocorreu?). Não sabe decifrar uma mensagem escrita (numa língua estranha) em um quadro negro, tampouco diagnosticar uma morte (a sua própria). Em seguida, observa atônito a posse de sua mulher por outro homem. Desesperado, indaga ao presidente da banca qual é o seu flagelo.


“Qual é o meu castigo?” A resposta do interlocutor lhe cai como a morte: “O de sempre, a

solidão”. Todas as condecorações que recebera em vida, possui em quê de funesto. Dessa mesma maneira, quando Isak recebe o título de Doutor honoris causa, a cerimônia tem o aspecto de um funeral.


Após a volta pra casa, na despedida dos três jovens, o velho professor lhe vê apagar a sua

última chama de vida, seu elo com o passado. Ele pede, como último desejo, que lhe mandem notícias. É inútil. Borg está ciente de sua inexorabilidade. Adormece. Sonha novamente com Sara. A Sara de seus tempos de menino, imagem permanente, doce e casta. Ela lhe mostra um espelho e lhe pede que e olhe no reflexo. Eis aí o grande apelo à realidade: “veja como você está velho!”. A obra finda com um Plano Geral de Isak adormecendo (morrendo).


Com suas minúcias microscópicas, Gunnar Fisher, fotógrafo, e braço direito de Bergman em outras obras, alcançou o panteão da geometria íntima, onde se registra o a extrema purificação espiritual, (ou o puro combate de uma alma), com a confrontação de uma tragédia exclusivamente imaterial, onde todo o momento é retrospecto.


2) Passado metafísico, biografia permanente


Inflexões líricas e beleza plástica à parte, Morangos Silvestres é uma meditação acerca das

inquietações de ordem metafísica de um homem solitário que vê o passado em latência insuportável, em confissão biográfica permanente. O empilhamento do relógio da memória - ora feliz, ora profundamente trágica - do velho professor, imprime uma asfixiante sensação de reminiscência insone que perpassa seu ser tornando-o um memorial ambulante, um indicador de quão ilimitada, quão irrestrita foi a sua própria experiência humana.



O filme, premiado com o Urso de Ouro no Festival de Berlim à época, passa a ser, dessa maneira e finalmente, um relicário de elementos que mesclam sonho, conjeturas e recordações, sucedendo-se umas às outras naquela confusão de situações que colocam o herói (Isak Borg) com as inelutáveis questões de existência.


Eneida Maria de Souza, que cita Jorge Luis Borges, em especial, Funes, o Memorioso, em

contraponto ao mordomo Santiago da obra fílmica homônima do cineasta brasieliro João Moreira Salles, dá-nos uma pista desse celeiro de documentos do memorandum de uma vida:


[…] ele não se esquecia de nada, sofria de insônia, e no lugar de selecionar acumulava registros, transformando-se num depósito infinito de objetos, em réplica naturalista do universo. Nesta implacável memória, nada se perde, nada se destrói, em razão de ser ela regida pelo princípio de conservação acumulativa, no qual o ato de pensar não passa de reprodução do perecido. (SOUZA, 2011, p.59).


REFERÊNCIAS:


JANELAS INDISCRETAS: ENSAIOS DE CRÍTICA BIOGRÁFICA

SOUZA, Eneida Maria de. Janelas Indiscretas: ensaios de crítica biográfica: Editora UFMG,

2011.


MORANGOS SILVESTRES. Direção: Ingmar Bergman. Produzido por Allan Ekelund.

Suécia. 1957. 1 DVD.


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