• Thiago Barcellos

Jan Švankmajer: o alquimista da animação tcheca

Atualizado: Set 29



Nada como uma boa dose de Jan Švankmajer antes de (não) dormir.


Esmiuçar a cinebiografia de Jan Švankmajer é tentativa vã. A pesquisa para tecer esse texto se mostrou infrutífera e de pouca valia, uma vez que depois passear por inúmeros sites gringos em busca de informações sobre o artista, percebo que permaneço sabendo, basicamente, o que sabia lá atrás.


Resolvo então rever sua obra. Uma por uma. O tempo transcorre célere (e, surpreendentemente, sem que se sinta). De repente, ei-lo aí: belo e augusto como o firmamento, pulsante feito um organismo. Eis a obra, eis o artista que eu eu procurei em vão na forma de dados e datas.


Artista visual tcheco, octogenário, diretor e roteirista de filmes de animação, Jan Švankmajer estudou na Academia de Artes, Arquitetura e Design (1950-1954) e de 1954 a 1958 especializou-se em cenografia e direção de teatro de fantoches no Departamento de Marionetes da Academia de Artes Cênicas de Praga.


Por nunca ter estudado cinema ou suas técnicas, Švankmajer produz designs altamente criativos e inquietos e de grande representatividade para o movimento surrealista na República Tcheca.


Švankmajer aposta em um surrealismo algo impactante que se distingue pelo comportamento bizarro, provocando súbitas e violentas alucinações, as quais possibilitam experiências estranhamente ricas nunca antes vistas. Por conta de sua imaginação abundante - onde se comungam elementos mágicos e oníricos -, inspirou figuras de peso como Tim Burton, Terry Gilliam e outros cineastas mundialmente famosos.


Seu cinema, inspirado não apenas no surrealismo, mas também na psicanálise de Sigmund Freud e no trabalho de escritores como Lewis Carroll e Edgar Allan Poe, entre outros, é bastante conhecido pelas releituras sombrias de contos de fadas famosos e por seu uso vanguardista da técnica stop motion.


Švankmajer estreou no cinema com o curta-metragem O Último Truque do Sr. Schwarcewallde e do Sr. Edgar (1964), uma história de dois ilusionistas estrelando fantoches e atores reais.


"Alice", 1988

Após a ocupação da Tchecoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia em 1968, o endurecido regime totalitário começou a censurar seu trabalho, que não tinha medo de experimentar. Entre os anos setenta, ele teve que parar de criar completamente.


Seu sucesso internacional veio na década de oitenta. Seu curta de animação Dimensões do Diálogo (1983) triunfou nos prestigiosos festivais internacionais de cinema de Annecy, na França, e em Berlinale, na Alemanha. Seu longa Alice, realizado em 1987 em coprodução tcheco-suíça, traria fama mundial ao cineasta.


Sua falta de reputação era em grande parte resultado de eventos políticos na era da Tchecoslováquia. Depois que a União Soviética invadiu aquele país em 1968, as autoridades restringiram as oportunidades de seus filmes atingirem um público mais amplo, considerando seu trabalho geralmente "inadequado".


Reverenciado por animadores do mundo todo, suas obras são por sua vez absurdas, grotescas, eróticas e horríveis. Em seu curta Lunch, da série Food de 1992, dois fregueses de um restaurante, ignorados por um garçom, devoram tudo o que encontram pela frente: guardanapos, pratos, xícaras, suas próprias roupas e, por fim, um ao outro.


Em Little Otik, 2000, baseado em um conto de fadas tcheco, um casal sem filhos adota um toco de árvore, que ganha vida, mas depois se torna homicida.


Como interpretar essas narrativas cômicas sombrias? Por um tempo, durante a década de 1970, o governo comunista da República Tcheca proibiu Švankmajer (pronuncia-se SHVUNK-myer) de fazer filmes, porque considerava sua arte como subversiva. Sobre essa época, em uma entrevista que li há alguns anos, disparou:


"Não foi uma tragédia porque sempre fui um artista multidimensional; eu usei esse hiato de proibição como um momento para trabalhar em outras vertentes da arte, como escultura, litografia, escrita e desenho".

Švankmajer, o papa da animação burlesca do Leste Europeu.

Escuridão, Luz, Escuridão (1989), apresenta um cinema antropofágico e bastante político ao expressar a comunicação humana. Trata-se de é um de seus trabalhos mais famosos e que tem como cenário uma sala diminuta onde vemos um corpo humano feito de argila que gradualmente se auto constrói à medida que suas várias partes

componentes se aglomeram.


Os vários membros desse corpo amorfo que, aos poucos vai surgindo, constrói a princípio uma espécie de corpo físico fantástico e surreal que progressivamente toma a forma de uma figura humana comum - ou quase.


Aqui, o artista parece querer se embrenhar em sua própria mente onde coexistem o caos, a ilusão e diversas fantasmagorias de ordem política e social. Como resultado, somos apresentados a uma obra apinhada de ideias magníficas, inventivas e geniais.


Švankmajer é a minha alvorada e o meu crepúsculo; o sono que não me chega nunca e também todos os meus pesadelos infantis. Seu cinema é o de dentes trincados feito sob medida pra um insone feito eu ficar acordado observando imagens que nem sempre consigo destrinchar.


Assista ao deliciosamente estranho, Luz, Escuridão, Luz (1989):









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