• Thiago Barcellos

Marcell Jankovics, gigante da animação húngara, morreu e quase ninguém notou.



Marcell Jankovics, uma das figuras de proa e também uma das pioneiras na história da animação húngara, morreu em maio. O anúncio foi dado pela Academia de Artes da Hungria. Ele tinha 79 anos.


É absolutamente salutar que se relembre de Jankovics e de seus filmes e séries ousadamente estilizados e fortemente simbólicos.


É bom rememorar como Jankovics se estabeleceu como um cineasta altamente distinto e ajudou a elevar o perfil da animação húngara, tanto durante a era comunista quanto desde então. Muitas de suas obras - notadamente Johnny Corncob, 1973 e O Filho da Égua Branca, 1981 -, tornaram-se clássicos de culto global.


Jankovics nasceu em Budapeste em 1941. Ele cresceu na capital e na cidade de Öcsöd antes de se matricular no Colégio Beneditino de Pannonhalma, um antigo internato católico romano para meninos. Sua dieta de animação quando criança consistia inteiramente em produções soviéticas.


Johnny Corncob

As circunstâncias políticas frustraram seus esforços para estudar arquitetura - seu pai caiu em desgraça com as autoridades comunistas e acabou na prisão. Em vez disso, Jankovics trabalhou para um laboratório na National Power Plant Repair and Maintenance Company, antes de se juntar ao Pannónia Film Studio de Budapeste como estagiário em 1960.


A Pannónia Film Studio era o único estúdio de animação no país à época e o jovem animador rapidamente subiu na hierarquia, tornando-se diretor em 1965. Jankovics começou na série satírica Gustav antes de dirigir seu - e, na verdade, o primeiro longa-metragem da Hungria, Johnny Corncob. Baseado em um poema épico de Sándor Petőfi, o filme foi encomendado pelo governo para marcar o 150º aniversário do nascimento do poeta.


O estilo visual de Johnny Corncob é brilhante, psicodélico, às vezes quase abstrato, com mais do que um toque de Yellow Submarine. Tanto em seu design quanto no uso de lendas e literatura húngara, o filme deu o tom para grande parte do trabalho futuro de Jankovics. O folclore local inspiraria explicitamente sua longa série Hungarian Folk Tales (Magyar népmesék, 1977–2012) e seu segundo longa-metragem O Filho da Égua Branca, que foi recentemente remasterizado e relançado.


O Filho da Égua Branca

Mas Jankovics, que considerava os contos populares universais, também explorou as lendas de outras culturas em busca de histórias. Seu filme de dois minutos, Sísifo (1974), indicado ao Oscar, narra o mito grego em preto e branco. Foi um dos vários curtas que dirigiu em sua carreira. Ele também seria aclamado por outro, The Struggle (Küzdők, 1977), que ganhou a Palma de Ouro de mehor curta-metragem em Cannes.


O último filme do diretor foi também o mais épico: A Tragédia do Homem (Az ember tragédiája, 2011), um longa-metragem de quase três horas sobre a história da civilização humana que levou quase três décadas para ser concluído (embora Jankovics calculasse que ele havia gasto seis anos no total na produção).


O colapso do regime comunista em 1989 revolucionou a indústria, forçando Jankovics a buscar financiamento privado para o filme; isso arrastou a produção. As fontes de dinheiro incluíam dois emblemas do capitalismo americano: General Motors, que licenciou Sísifo para uso em um comercial de carro (que foi ao ar durante o Super Bowl), e Disney, que o contratou para trabalhar no storyboard de uma versão inicial de A Nova Onda do Imperador - seu então diretor Roger Allers ficara impressionado com Johnny Corncob.


No final, Allers deixou o projeto e o trabalho de Jankovics não foi utilizado, embora ele tenha recebido o crédito por "desenvolvimento visual adicional".


A Tragédia do Homem

Jankovics já falou abertamente sobre a censura que sofreu sob o comunismo. Ao mesmo tempo, ele lamentou a falta de apoio do governo para a animação sob o capitalismo. Ele também estava preocupado com o surgimento das tecnologias digitais. Em uma entrevista de 2015 ao site Cartoon Brew, ele disse:


“Eu prefiro o antigo sistema de estúdio. O antigo Estúdio de Cinema Pannónia era uma comunidade fantástica."

Jankovics tinha o comando sobre muitos aspectos de seu meio: além de dirigir, ele trabalhava no roteiro, designs, storyboards, layouts e animação de seus filmes. Fora da produção de animação, ele foi um prolífico ilustrador e educador, bem como escritor de muitos artigos e livros sobre cultura e artes.


Pouco antes de morrer, ele estava trabalhando em um livro sobre o simbolismo bíblico. Em outra entrevista ao Cartoon Brew, Jankovics expôs sua compreensão pessoal do que a animação pode fazer:


Tanto quanto me lembro, sempre pensei em imagens e tive uma imaginação fértil. Nos meus filmes de animação o desenho de cada fotograma é de grande importância, como se fosse uma pintura. Na maioria das vezes, e particularmente em um contexto mítico e fabuloso, meus personagens humanos, mesmo personagens principais, são apenas uma pequena parte de toda a imagem. Tentar expressar um comportamento humano realista em animação têm limitações. Essas tentativas de animação séria costumam ser absurdamente ridículas. Por que alguém iria imitar a realidade? Deixe isso para os atores vivos! A realidade não é para animação. A animação é um mundo estilizado e fantástico.


Seus mundos, mais estilizados e fantásticos do que a maioria, deixaram uma marca indelével na animação na Hungria e em outros lugares.


Jankovics foi único.

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