• Thiago Barcellos

Marighella é nosso



Depois de ter sido posto pra córner pela camarilha de répteis escamosos da Ancine, Wagner Moura desponta. Ele é um ator dirigindo um filme. Sua escola, é, para o bem ou para o mal, José Padilha, Gilberto Braga e Netflix.


Estreante na direção, Moura usa elementos do filme de ação hollywoodianesco para

contar a história sobre os últimos anos do político e guerrilheiro Carlos Marighella.


Rememorando a era duma civilização drenada pelo barbarismo, o buraco de Moura é mais embaixo do que aquele esgotamento de tudo que é possível sentir, de todas as maneiras possíveis, tornando um tanto supérfluos outros filmes políticos ou obras nacionais contemporâneas de quaisquer ficção.


Há um imenso prazer no recorte de seu Marighella, apesar de um certo desapontamento histórico aqui e acolá, o tom ufanista, além de frustrações mil de ordem digamos, hagiográfica, quando se tenta erigir "um santo do proletariado".


Marighella, a despeito de tudo isso é, sobretudo, filme "fim de século", atávico e urgente ante a secura e a vaporosidade desse nosso governo de emulação de 68, de caolhos fedorentos, pura natureza humana, horrenda, despida de suas pretensões físicas e espirituais.


Filme-radiografia dum deputado preto, guerrilheiro, queridinho de Sartre, torturado, arquiteto de ataques, herói e vilão, Seu Jorge, negro retinto e de olhos em chama pura, talvez seja mais sudanês que o principado ancestral do próprio Marighella. E, contrariando seus companheiros de guerrilha, uma maioria que moitou, apesar da profissão de fé de esquerdismo e nacionalismo, que se fazia restrita somente a botequins.


Num pais mais civilizado, numa época menos tumultuada, talvez Marighella prosperasse como uma obra que articulou uma linguagem de dentes trincados que, mesmo defasada, usou como substrato o filme ação estadunidense, humanizando-o universalmente através do cinema da nossa terra.


6 visualizações0 comentário
GoogleMaps Logo Shadow.png
GoogleMaps Pin.png