• Thiago Barcellos

Morreu Jean-Paul Belmondo, uma das maiores lendas do cinema francês e mundial

Atualizado: Set 9



Sem receio do menor equívoco: Jean-Paul Belmondo, ou "Bebel”, como era carinhosamente tratado na França, foi uma das maiores estrelas do cinema europeu sobretudo da década de 1960, mas também das duas décadas vindouras.


Astro da Nouvelle Vague, Belmondo foi um dos rostos mais conhecidos do movimento que, marcado pela juventude, pela revolução e transgressão às regras cinematográficas pré-estabelecidas, transformou o cinema francês e mundial.


O ator francês morreu aos 88 anos na segunda-feira última (6), e ficou conhecido por filmes como "Acossado" (1960) e "O demônio das onze horas" (1965), ambos capitaneados por Jean-Luc Godard.


Nasceu em 9 de abril de 1933, em Neuilly-sur-Seine, colado à Paris, no seio de uma família de artistas endinheirados (o pai, Paul Belmondo, era escultor, a mãe, Sarah Rainaud-Richard, pintora). Conta-se que Jean-Paul Belmondo, na juventude, parecia ter mais inclinação para o esporte, sobretudo o boxe e o futebol (foi, aliás, um dos fundadores do Paris Saint-Germain). A propósito da curta carreira como pugilista, sabe-se que desistiu após três combates amadores em que saiu vencedor ao primeiro assalto entre 1949 e 1950: "Parei quando o rosto que vi no espelho começou a mudar", recordaria mais tarde. Entretanto, tudo mudou ao descobrir a arte da representação.


Em 1952, depois de duas tentativas fracassadas, conseguiu ser aceito no Conservatório de Paris para estudar o ofício de ator. Um de seus professores chegou a lhe dizer que não tinha futuro como protagonista, devido a sua aparência (foi considerado como um "galã feio"). Como a recepção foi, tudo menos calorosa - e, temperamental como sempre fora - , quando apresentou seu trabalho final e o júri não lhe deu o reconhecimento que ele achava que merecia, reagiu com um gesto obsceno.


A carreira de Belmondo se estendeu por meio século, incluindo mais de 80 longas. Ele foi a personificação do estereótipo masculino nos anos 1960, caracterizado não exatamente pela beleza, mas sim pela virilidade, charme e carisma.


De carreira inconteste, e além de trabalhar com os mais importantes diretores franceses, como Godard, Truffaut, Lelouch e Chabrol em obras de autor, principalmente interpretando homens frios e sisudos, contracenou com grandes nomes femininos como Jean Seberg, Jeanne Moreau, Catherine Deneuve, Romy Schneider e Sophia Loren.


Fora a parceria com uma constelação de diretores cultuados, atuou em divertidos sucessos de bilheteria e entre seu maiores petardos destaca-se o emblemático "O Homem do Rio" (1964), um filme de ação rodado no Brasil, que viria a influenciar Steven Spielberg para a feitura de “Os caçadores da arca perdida”.


Em "O Homem do Rio", Belmondo ruma para a América do Sul para encontrar a noiva raptada por indígenas. O personagem vivido por ele desembarca no Rio, para depois passar por Brasília e Manaus. Como o astro tinha uma certa queda (e, claro, vocação) pra o cinema de ação e, segundo consta era famoso por dispensar dublês, muito provavelmente ficou encantado em poder se equilibrar pelos altíssimos edifícios em construção da capital brasileira.



“Nenhum ator desde James Dean inspirou tamanho sentimento de identificação com público”, escreveu o crítico Eugene Archer no New York Times em 1965.


Por sua atuação em "Itinerário de um aventureiro" (1988), de Lelouch, ganhou um César, a mais alta distinção do cinema francês. Em 2016, o Festival de Veneza lhe dedicou um Leão de Ouro pelo conjunto de sua obra.


De forma significativa, as suas memórias receberam como título "Mil vidas são melhores do que uma", de 2016 e, aos jornalistas que em Veneza no mesmo ano o questionaram sobre a sua carreira algo errática tanto em filmes artísticos como comerciais, afirmou "divertir-se em ambos" e arrematou: "é como a vida, um dia rimos, no outro choramos".


Para a arte, figuras como a de Jean-Paul Belmondo simbolizam um inexorável (mas digno) fim do século da humanidade. Em contrapartida, as últimas décadas anunciam uma notável falência cultural, estética, civilizacional, que parece cada vez mais irreversível.

Au revoir, "Bebel".

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