• Thiago Barcellos

O adeus à expressão da alegria encarnada num país de trevas que finge ser feliz.




Mistura de comediante de vaudeville com rosto de cartum e munido de uma metralhadora verbal, Paulo Gustavo era dono de um estilo irreverente e, indo mais longe e sem medo de errar, era um digno representante de uma escola do humor brasileiro que remonta Dercy Gonçalves e Zé Trindade.



Comediante amplo, cujo dom especial era ser capaz de exercer controle fino sobre as emoções de um grande número de pessoas reunidas em um lugar para testemunhar um evento único.


Paulo Gustavo era ator físico, é claro, mas era esse controle que o tornava ímpar, insubstituível. Seja nos palcos, seja na tela da TV e no cinema, a gente percebe como é vital para o artista o uso que ele faz de seus recursos corporais.


A excentricidade da voz quando encarna Dona Hermínia, sua personagem capital, é a mesma amplitude de uma dezena de cantos de pássaros, do grito do pavão ao flauteado de uma pomba. Sua articulação, em qualquer velocidade, era impecável e seu riso subia como pipa em dia de céu azul.


Em pouco mais de 15 anos, o ator saiu do anonimato para o posto de maior chamariz de público do cinema brasileiro. Minha Mãe é Uma Peça 3, ostenta atualmente atualmente o título de maior bilheteria de filme nacional de todos os tempos, com uma renda bruta de R$ 143,9 milhões.


Por vezes posto como réu por fazer um humor estereotipado e caricato, o adeus de Paulo Gustavo - e, com ele, da memorável Dona Hermínia -, deixa a nação um pouco mais órfã de sorrisos.


E é precisamente às mulheres da sua família, em especial, a mãe e as tias, que o artista dizia dever tudo o que conquistou.


O artista, aliás, se inspirou na mãe, Déa Lúcia, e nas mulheres fortes de sua família para criar a matriarca sem papas na língua, um tom acima, histérica, amorosa e superprotetora.


Certa vez, um professor da Casa de Artes de Laranjeiras (CAL), onde estudava, lhe disse que teria talento apenas para travesti, não para ator. Gay assumido, consciente de que não era galã e nem tinha corpão, Paulo advertiu: “Já que sou afeminado, vou fazer uma mulher. Mas vou fazer uma mulher incrível”.


E fez.


Perda incontornável, seu falecimento prematuro marca o fim uma carreira estelar com poucos paralelos na indústria do entretenimento brasileiro.


O triste adeus engrossa a tenebrosa lista de mais de 400.000 vidas brasileiras perdidas para o coronavírus.




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