• Thiago Barcellos

O dia em que o fascínio da arte matou um juiz



Stravinsky definiu a música como “uma sucessão de impulsos e de repouso”.


A síntese da obra de Ingmar Bergman sempre possuiu o indelével traço do ritmo lento entrecortado por impulsos de emoções. Essas emoções impelem a expressão do rosto humano que, em toda sua obra, é multiforme e abarca uma fecunda quantidade de variações.


Rostos iluminados, eclipsados, céticos, nus.


Os estados de crise, as insolúveis questões de problemática existencial são a expressão de uma vida interior saturada, que se traduz no desejo de fazer esses rostos falarem.



Feito para a TV sueca e filmado em planos próximos de rostos e de objetos, além de ser quase que totalmente desprovido de cenários, O Rito (1969) de Ingmar Bergman, gira em torno de três atores que são acusados de representar uma peça, cuja obscenidade perturba a ordem pública.


Esses são confrontados no escritório de um juiz e interrogados. O inquérito dos acusados deve terminar pela reconstituição do espetáculo denunciado.


O poder judiciário, representado no filme pela figura do juiz, é associado à manutenção da ordem, cujo intento é reprimir quaisquer manifestações que o conteste. A arte, por sua vez, tem como desígnio pulverizar essas amarras autoritárias e transmitir ao público a sua própria verdade.


Ao final da representação, a fascinação da arte mata o juiz.


Do tal número pecaminoso, não veremos grande coisa, a não ser roupas fálicas discorridas em um ritual que mescla paganismo e liturgia, oscilando entre o sacro e o profano, onde um dos artistas bebe o sangue de Deus.



Com o austero desfecho, há a consumação severa de que Bergman, o artista, nos revelou, afinal, que o juiz fora acometido não por um ataque cardíaco e sim por uma catarse fulminante, no momento em que, abdicando da utopia da compreensão psicológica, desejava “ver” o sublime da arte.


É a queda da besta tricéfala burguesa e a aclamação da arte; o apogeu da expressividade cultural e o perigeu da feiura dos sem rosto.

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