• Thiago Barcellos

O realismo sórdido e ultracaricultural do cowboy no faroeste italiano



O subgênero fílmico Western Spaghetti se inscreve como um pastiche confesso do modelo norte-americano tradicional. O Western Spaghetti é, ainda, segundo seus detratores, uma forma comercial e bastante artificial de cinema, criada em conjunto por inúmeros diretores italianos - entre eles o diretor que pode ser considerado como o criador desse subgênero, o romano Sergio Leone para faturar em cima do hiato hollywoodiano deixado no setor.


A verdade é que o Western Spaghetti funciona muito bem como um espetáculo puro, vastamente acessível a qualquer plateia do mundo sem grande preparação cultural. Absolutamente diferente do original hollywoodiano por ser altamente picaresco, burlesco por vezes abstrato e intenso, esse gênero é dotado de uma beleza rústica, exatamente pela visão ultracaricatural do cowboy, do Oeste e da história americana.


O Spaghetti Western é único: possuidor de um barroquismo excêntrico; música obsessiva derivada de um realismo sórdido, fartamente escatológico, às vezes erótico, e sem a mínima precisão histórica (em sua maioria, esses Westerns eram filmados numa região montanhosa da Espanha chamada Almería, mais tarde na Itália, Alemanha, em Israel e até na Iugoslávia, por ser exatamente mais barato que filmar no parque Monument Valley, o tablado original dos inúmeros Westerns de John Ford).


O gênero extravasa na teatralização da cenografia e ainda perverte o Western legítimo pela simplificação da trama, pelas interpretações descomedidas e pela automatização da violência. Se o Western original baseia-se, sobretudo na “mitologização” de fatos reais, o Western italiano acentua uma deformação dessa mitologia em que se campeia a completa imprecisão histórica e na ambiguidade de quaisquer aspectos formais (mitológicos ou não, factuais ou não) da história norte-americana. O êxito do filme de Sergio Leone fez com que outros diretores italianos se aventurassem pelo gênero. É o caso, por exemplo, de Sergio Corbucci, Antonio Margheriti (normalmente assinando como Anthony M. Dawson), Sergio Garrone, Damiano Damiani entre outros.


Normalmente, o leitmotiv é a vingança e não há sequer resquício de preocupações de ordem documental, tampouco o sentido de enfocar uma realidade social; já que esses filmes não tinham nenhuma raiz cultural ou qualquer ligação com a mitologia americana.


Vale assinalar que o fenômeno mundial do gênero Western Spaghetti deflagrado Por um Punhado de Dólares (Per um Pugno di Dollari, 1964) de Sergio Leone, possui como raiz a mesma história que Yojimbo – O Guarda- Costas (Yojimbo, 1961) do diretor japonês Akira Kurosawa.


Yojimbo - O Guarda-Costas, de Akira Kurosawa (1966)

A forma de Kurosawa trabalhar a música em Yojimbo – O Guarda Costas foi a maior fonte de inspiração tanto para Leone quanto para o compositor Ennio Morricone para compor

algumas das características do Western Spaghetti. A supressão dos heróis e a consagração dos anti-heróis, bem como o gênio tétrico e por vezes excessivamente bizarro de alguns personagens, como o de Django em Django – O Bastardo (Django Il Bastardo, 1969) de Sergio Garrone, dará ao gênero um caráter muitas vezes imprevisível. Essa imprevisibilidade vai desde a elaboração do movimento da câmera posicionada acima do chapéu da personagem, que o acompanha num caminhar sombrio por uma estrada rota, até a constatação de que Django pode ser um ente sobrenatural, um carrasco sem escrúpulos ou a própria encarnação da morte, que emerge do limbo comas lápides fúnebres dos malfeitores com os nomes antecipadamente gravados, para que se selem seus funerais.


Em outra sequência em particular, a sombra de Django “devora” um dos malfeitores enquanto sua capa negra flamula pelo ar.


Django está realmente morto pela maneira como lida com suas próprias inquietações e como realiza suas intenções mórbidas. Seu comportamento é congenial, seu mote é purulento, significando o extravasamento natural de um soldado da Guerra Civil americana que foi traído, alvejado pelas costas e parte para a desforra.


Anthony Steffen, o ítalo-brasileiro Antônio Luiz de Teffé, em Django, O Bastardo, 1969, de Sergio Garrone

Dessa forma, podemos concluir que as personagens e os temas do Western Spaghetti podem se permitir um aglomerado de liberdades e ambiguidades imaginárias, quase beirando o surreal. Os crimes e as violências perpetradas nesses personagens terríveis apenas repercutem na prática objetiva de suas ações conseguintes. Os atos de represália (tão caros ao gênero) se encerram formando e formatando um arcabouço moral (na sua medida) e emocional.


Essas personagens podem circular em um tempo e espaço imprecisos e indeterminados, porque eles são os legítimos filhos de um cinema de retórica; extraordinárias criaturas de uma ficção potencializada pela transfiguração do mito do Western americano tradicional.


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