• Thiago Barcellos

Os mundos selvagens de René Laloux: O poeta surreal da animação francesa



Paris foi berço de grandes artistas e, em 1929, concebeu René Laloux.


René foi um artista visual que um belo dia se deparou com o mundo da animação.


Realizou importantes obras que constituem como as primeiras de uma longa e rica tradição francesa.


Não é só o mérito de ter sido um dos primeiros, o seu trabalho continua a ser um dos melhores.


Laloux dedicou os primeiros anos de carreira à pintura. Após um curto período em agências de publicidade, começou a trabalhar no Cour-Cheverny Psychiatric Institute.


Seduzido pela animação experimental da época, o artista começou a usar a imagem em movimento como veículo para criar adaptações de desenhos de autoria de pacientes psiquiátricos.


Juntamente com alguns assistentes, Laloux criou um filme de 14 minutos que chamou de Os Dentes do Macaco (Les Dents du Singe, 1960). Trata-se de um curta de animação em que um primata tem seus dentes extraídos contra sua vontade. O filme impressionou o diretor francês Frédéric Rossif a tal ponto que ele comprou o filme e o lançou nos cinemas.


"Os Dentes do Macaco", 1960

O surpreendente sucesso financeiro e a grande aceitação crítica de Os Dentes do Macaco motivou Laloux a investir em novos projetos. Os curtas-metragens Os Tempos Mortos (Les Temps Morts, 1964) - o mais onírico de seus trabalhos - e Os Caracóis (Les Escargots, 1965) seguiram a linha de temas sombrios mesclados ao surrealismo.


O primeiro curta é composto por uma série de alegorias visuais sobre a morte e suas consequências no mundo.


Os Caracóis é um filmete de terror que conta a história de uma cidade invadida por moluscos gigantes. Nessas obras, Laloux contou com a colaboração do escritor e pintor pós-surrealista Rolando Topor.


"Os Caracóis", 1965

Junto a Topor, embarca em seu projeto mais ambicioso: o longa-metragem de ficção científica Planeta Selvagem (La Planète Sauvage, 1973)


Planeta Selvagem é o longa-metragem de estreia de René Laloux e se torna seu trabalho de maior destaque.


Talvez a essa altura ele não imaginasse que se tornaria um dos clássicos da animação francesa. A história é baseada no famoso romance Oms en Série, do escritor francês Stefan Wul. O filme conta a história de um universo onde seres humanoides chamados Oms vivem sob a opressão dos Draags, criaturas azuis de dois metros e que tratam Oms como animais de estimação. Um grupo rebelde de Oms consegue escapar para um planeta selvagem onde eles descobrem os segredos dos Draggs. Com essas informações, eles conseguem ser tratados como iguais.


O filme abrange uma reflexão sobre a condição humana, ao passo que questiona nossa posição como espécie dominante no planeta.


Essa estranha distopia metafísica - e algo gnóstica -, parece o resultado do cruzamento do surrealismo de Salvador Dalí e a história de Gulliver de Jonathan Swift, e que abusa da técnica de animação cutout - a mesma técnica das vinhetas da série de humor do grupo Monty Python.


A trilha de rock progressivo de Alain Goraguer, pode fazer com que se tenha a sensação de Planeta Fantástico parecer datado mas, em última análise, é uma obra bastante singular e que realmente merece o adjetivo em seu título.


O filme levou três anos para ser produzido e ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cinema de Cannes em 1973, garantindo seu lugar na história.


"Planeta Selvagem", 1973

Isso o levou a trabalhar em seu próximo projeto com um dos maiores ilustradores de todos os tempos: Moebius, uma das figuras mais reverenciadas dos quadrinhos underground.


Juntos, em coprodução com a Hungria, fizeram Os Mestres do Tempo (Les Maîtres du Temps, 1981), e que também foi baseado no romance de ficção científica, de Stefan Wul, de 1958, intitulado L'Orphelin de Perdide (O Órfão de Perdide).


Com uma narrativa épica, Os Mestres do Tempo é uma obra apinhada de representações planetárias fantasmagóricas que sugerem ecossistemas alienígenas interconectados, em uma aventura espacial fascinante com a caligrafia única de Moebius.


Assim como em Planeta Fantástico, Mestres do Tempo, Laloux parece apenas se preocupar em destacar a estranheza intrínseca da vida alienígena do que propriamente com um enredo.


A animação gira em torno de uma missão de resgate de um menino perdido em um planeta estranho e hostil. Nesse bizarro astro - de nome Perdide -, um ataque de vespas gigantes deixa Piel (o tal menino) sozinho em um carro destruído e junto a seu pai moribundo.


Uma mensagem de socorro chega a seu amigo Jaffar, um viajante do espaço. A bordo da nave de Jaffar estão o Príncipe renegado Matton, sua noiva e Silbad, que conhece bem o planeta. Assim começa uma incrível corrida pelo espaço para salvar Piel.


"Os Mestres do Tempo", 1981

Seu estilo e a fama de seus autores fizeram de Os Mestres do Tempo um sucesso de bilheteria na França, mas não teve a mesma sorte nos mercados internacionais, principalmente em Hollywood. Trata-se de uma verdadeira joia, cult, às vezes pouco lembrada, mas muito apreciada mesmo depois de décadas.


Estranhos e atmosféricos, os filmes de Laloux são geralmente melhor apreciados como uma vitrine de ideias e não necessariamente em ter a intenção de contar uma história coerente.


No dia 14 de março de 2004 apagou-se a luz desse gigante da animação. Entretanto, René Laloux se mantém como cinema superior. O resto é o opróbrio do mundo. Anêmico e pífio. E nulo.

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