• Thiago Barcellos

Pulp Fiction ou o extermínio do maniqueísmo no cinema contemporâneo.



O que há de comumente amoral nos muitos filmes em que o mote é a violência não é

propriamente a violência em si, mas o fato de que se usa um ensejo moral para que o

espectador se torne apto a gozar das carnificinas praticadas pelos ditos mocinhos em

nome da lei.


Esse maniqueísmo tão farto em filmes do subgênero italiano polizieschi, como em Cidade

violenta (Cittá violenta, 1970) de Sergio Sollima e Os assassinos são nossos hóspedes

(Gli assassini sono nostri ospiti, 1976) de Vincenzo Rigo, que servia para instigar as

pulsões, digamos “assassinas” da plateia, não é encontrado em Pulp fiction – tempo de

violência (Pulp fiction, 1994) de Quentin Tarantino.


As personagens de Quentin Tarantino não são frutos de um meio suburbano violento,

como querem esses filmes policiais italianos (apesar do diretor também tê-los absorvido

em seu cinema); os assassinos de Pulp fiction não são vítimas desse maniqueísmo

barato, tampouco ameaçados por uma ordem social viciosa. O gangsterismo aqui é

tratado sumariamente como opção profissional.


Com a estilização dessa violência, temos como resultado uma mescla improvável de

referências que vão desde a prosa coloquial dos detetives noir dos livros de Dashiel Hammett até a estereotipização encontrada nas personagens da subliteratura pulp norte-

americana.


Quando por exemplo, os matadores de aluguel Vincent Vega (John Travolta) e Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) antes de uma execução, fazem divagações sobre

sanduíches e sobre a liberalidade das drogas na Holanda, é o momento em que reside a

força subversiva de Pulp fiction, isto é, em que há, sobretudo, um notável substrato

amoral, sempre consoante à banalização com escracho e à caricatura da violência.



Tem-se ainda, nesse monumento à colagem, um cineasta educado na arte da emulação e

do recorte. Trata-se de um cinema original na forma como dialoga com gêneros que o

precederam. O destaque a essa reciclagem pós-moderna de se fazer cinema está, acima

de tudo, no pastiche e nas referências ao filme de gênero, replicadas do blaxploitation,

do chanbara, do spaghetti western. Mais ainda: nas homenagens nada veladas a

Douglas Sirk, Howard Hawks e a Fellini.


Cronologicamente embaralhado e com diversas histórias interligadas, a estrutura é

fornecida por um histriônico assalto a um restaurante por um casal de ladrões de meia-

tigela – leia-se Pumpkin (Tim Roth) e Honneybunny (Amanda Plummer).


Magnificamente costuradas, essas histórias atreladas por uma temática singular

transforma o lugar-comum em assinatura. A narrativa alinear em Pulp fiction converte o

básico em um esqueleto que se distende em inúmeras situações paralelas, muitas vezes

tangenciais, que no final deixam evidente o domínio do diretor, sobretudo sobre a

montagem da obra.


O tom do filme é mordaz. Qualquer matança matutina torna-se um trabalho como

qualquer outro. Ossos do oficio. E entre uma atrocidade e outra, uma informal conversa

sobre McDonald’s ou sobre a conotação sexual de uma inocente massagem nos pés.

Vega e Winnfield têm, a bem da verdade, uma visão tão especialmente distanciada quanto áspera do mundo da criminalidade em que vivem.



Ainda que se trate de um filme repleto de reviravoltas um tanto cômicas, estes são uma dupla de assassinos indubitavelmente atabalhoados. Pois, pelo fato de serem caricaturalmente malvados e donos de uma frieza algo estudada são como quaisquer profissionais especializados, ou seja, capazes de cometer deslizes inacreditáveis.


Tanto que quando alvejam, sem querer, com um tiro nos miolos, um sujeito no banco de trás de um carro, ultrapassa-se definitivamente a linha que tange a violência da banalização.


Estupefatos e não sabendo o que fazer do cadáver e nem com os pedaços de massa encefálica e sangue provenientes do acidente, contratam o “resolvedor de problemas” Sr. Wilson Wolf (Harvey Keitel), especializado em resolver casos dessa estirpe, que organiza, limpa e realiza a desova do cadáver sem deixar pistas.


A ironia do roteiro fala ainda da profissionalização do crime – e de que forma essa

profissionalização, anos-luz da moral, torna-se banal, infantil e por que não,

deliciosamente incompetente.


Quando e se algum dia veremos um filme do nível de Pulp fiction – principalmente

naquilo que este se propõe – , é coisa que nem ouso especular.

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