• Thiago Barcellos

"Scenes with Beans": uma esquisitice húngara - e deliciosa - animada com 3.000 feijões!



Imagine a cena: na imensidão do espaço sideral, uma nave em formato não muito diferente de uma galinha - apenas mais aerodinâmica -, se aproxima de um planeta distante e prepara seus monitores para dar uma olhada mais de perto.


À medida que a lua vai ficando para trás, uma visão melhor é alcançada para revelar uma sociedade não muito diferente da da Terra, exceto que, em vez de pessoas, há feijões povoando a superfície, tendo construído cidades, cultivado a terra e criado um lugar melhor para viver.


Este fascinante filme é uma alegoria social (e cômica) que foi feita com mais de 3.000 grãos e apresenta um extraterrestre que chega a um planeta habitado por feijões e observa as vidas, amores e mortes.



Scenes with Beans (1976), que fala sobre a obsessão da era espacial, é também veículo para a exploração da vigilância, a ameaça estrangeira e a cruel intenção dos Estados autoritários.


Nesse mundinho estranhamente inóspito e a partir da perspectiva de uma ave, somos testemunhas de seu cotidiano, incluindo um acidente de trânsito, o trabalho duro em fazendas, uma partida de futebol, lâminas de barbear cortando tecido para simular um trator lavrando o solo, o lançamento de um foguete e o sufocamento de uma greve operária.


As ruas de arquitetura imponente são compostas por itens retirados das prateleiras dos supermercados. Um feijão branco empurra uma colher de chá contendo um pequenino feijão (uma "criança", como em um carrinho de bebê). Um feijão vermelho faz uma pausa para admirar, pegar, segurar e colocar rapidamente de volta no talher (ou carrinho).



Depois, há o infeliz feijão que, enquanto estava no topo de um arranha-céu trabalhando, de repente perde o equilíbrio (os feijões têm pés?) E cai no chão com um grito de gelar o sangue.


O filme é uma das muitas animações de objetos que representam o gênero humano de Ottó Foky, cujos roteiros foram todos escritos por József Nepp.


Scenes with Beans mostra por que Ottó Foky deve ser listado entre os grandes nomes da animação em stop motion, como Ray Harryhausen ou Willis O'Brien.


Ottó Foky, em seu estúdio, na Hungria.

A genialidade do diretor em mover meticulosamente esses pequenos objetos que funcionam para simular o corriqueiro, atesta a habilidade incomparável da animação do Leste Europeu. O que surge nessas inúmeras tradições de animação com o mesmo tema recorrente é a ideia do 'mecanismo' e suas justaposições (e mediações) com o orgânico.


É o tipo de filme em que você fica constantemente maravilhado com a inventividade do roteiro e que, se fosse filmado como um documentário de live action, pareceria simplesmente banal.


A engenhosidade técnica por si só é suficiente para fazer valer a pena dar uma espiada. É o tipo de curta-metragem que, depois de assistir uma vez, você provavelmente vai querer dar rewind e assistir de novo e de novo.


Tão notável quanto recomendável.



16 visualizações1 comentário
GoogleMaps Logo Shadow.png
GoogleMaps Pin.png