Sem bis, sem Nelson



Nelson Freire, morto nesta segunda última aos 77 anos, era um dos mais fundamentais artistas brasileiros em atividade.


Uma fratura no braço esquerdo por causa de uma queda no calçadão da Barra, no Rio, em 2019, o fez cancelar recitais e permanecer de molho durante uma temporada inteirinha, sem contar uma depressão e que ainda se prolongou por causa da suspensão das atividades artísticas provocadas pela pandemia.


Na época, o pianista passou por uma cirurgia de emergência no Hospital Copa D’Or, em Copa, e precisou cancelar uma pilha de compromissos já firmados mundo afora.


Segundo amigos próximos, com a quebra do úmero no tombo, o artista sofria por não mais conseguir tocar piano.


Mineiro de Boa Esperança, Minas Gerais, Freire começou a encantar o mundo ainda infante. Aos cinco anos, apresentou seu primeiro recital no Teatro Municipal de São João Del Rei. Daí pro Rio, depois à Viena, no intuito de aperfeiçoar seu piano. O desempenho do menino impressionou o júri e resultou em uma bolsa de estudos para estudar na mais conceituada escola de música austríaca.


Ainda garoto, papou com a maior honra, a Dinu Lipatti Medal, em Londres, e o primeiríssimo prêmio na competição internacional Vianna da Motta, em Portugal.


Tocou com os maiores monstros de sua geração, nas principais salas de concerto do mundo.


Se apresentou em mais de 70 países e foi o único brasileiro a constar na Great pianists of the 20th Century, coletânea de 100 volumes com gravações de 72 grandes pianistas do planeta.


Freire, um virtuoso com toque aveludado, a ponta de diamante em recitais mundo afora, um dos maiores pianistas desta ou de qualquer geração; a mediação entre cada um de nós e a própria música.


O vi, em 2003, num documentário do João Moreira Salles. Freire era tácito, enigmático - o filme tem longas passagens dele em silêncio.


Homem de olhar terno e também triste, e que talvez emanasse a perfeita condição para a arte ser uma necessidade imperativa. Humilde e extremamente dedicado, Freire era chamado por seus colegas de música de “Reverendo Nelson”.



Seu Rachmaninoff era espectral. É difícil imaginar algo mais satisfatório.


Ouvindo-o, se esquecia por completo do nosso dia a dia, da nossa mortalidade, das broncas inenarráveis, do nosso curral de mazelas. Mas agora, como na infância, nossa solidão é embrulhada em trevas totais.


Como, afinal, definir um titã do quilate de Nelson Freire? Observar meticulosamente o seu lado virtuoso, de prodígio sem par nesse mundo?


A técnica absurda que o possibilitava não perder uma só nota ou o imenso universo de pura elevação espiritual que dele fluía?


Falo isso porque nunca uma interpretação de Nelson era igual a outra. Schumann, Brahms, Beethoven, Liszt, Chopin, Villa-Lobos. Nuances, coros, tons. Tudo era novo, tudo era sempre belo e único.


Ele sempre era capaz de colorir de forma pessoal o ambiente sonoro de uma partitura.


Com sua morte, nossa nação - assim como o planeta -, perde uma de suas grandes referências no terreno da música.


A Freire, minha incondicional admiração. Vai, amigo, into the gentle night.

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