• Thiago Barcellos

"Stalker": o labirinto metafísico de Andrei Tarkovsky

Atualizado: Jul 16



O cinema de Andrei Tarkovsky não se compara a nada que se mova ou se reproduza sob a face da Terra. Seu cinema é uma coisa única e rara em sua totalidade. Um movimento metafísico. Um fenômeno específico. Você pode tentar compreendê-lo, mas no máximo, vai acabar percebendo que a arte em si é algo absolutamente inexplicável.


Em toda a sua carreira, Tarkovsky esculpiu o tempo à sua maneira, teoria essa que viria a servir de inspiração a todas as gerações de realizadores cinematográficos por vir. Para esse inquieto artista russo, o tempo era o potencial mais rico do cinema e devia ser usado para explorar a nossa própria percepção e alterá-la.


Os planos longos e silenciosos e os poucos cortes na edição dos filmes pretendiam dar aos espectadores a sensação de passar do tempo, de perder tempo, e a relação entre um momento no tempo e o que lhe segue.


O roteiro de Stalker (1979) é baseado no estranho e fascinante romance de ficção científica Piquenique à Beira da Estrada, lavra dos irmãos Arkady e Boris Strugatzky, e que se passa em um lugar e em um tempo histórico não identificáveis. É a história de três homens anônimos que se embrenham em uma jornada rumo à Zona, um local afixado como proibido e perigoso.



Estes são O Escritor, O Professor e um Stalker, sendo esse último uma espécie de condutor ou guia não autorizado. No centro da Zona está um local misterioso e envolto em lendas, denominado O Quarto dos Desejos. Uma vez dentro do recinto, qualquer aspiração humana torna-se realidade.


A tal Zona é figurada como uma localidade onde há muitos anos colidiram meteoritos altamente radioativos. Tropas militares foram enviadas afim de averiguar a situação e jamais retornaram. E então, rapidamente, essa região foi isolada por cordões fronteiriços pelas autoridades estatais. E, como era de se esperar, o fato alimentou o imaginário popular e, com ele, o surgimento de fábulas fantásticas. Mesmo de difícil acesso, o lugar é às vezes percorrido por Stalkers, chamados assim devido à sua estranha definição e ou funcionalidade. Estes são a mescla exata entre guias turísticos e contrabandistas. Seu significado na tradução em inglês, defini-os como "perseguidores" (ou "caçadores") de andar felino, furtivo e também cauteloso.



Os diálogos são infrequentes, às vezes poéticos e elípticos entre os três viajantes que são interpretados por atores de fisionomias espectrais, calvos e inexpressivos que se tornam quase intercambiáveis ​​quando o filme termina. A Zona, fisicamente labiríntica, é sugerida por charcos alagados, cenários rurais sombrios, com ferrovias abandonadas e postes telefônicos rotos. Já o local mágico onde os desejos se tornam realidade, sugere um banheiro no Grand Central Terminal após uma enchente. Tudo o que resta da glória passada da sala é um piso de ladrilhos brancos, enterrado sob vários centímetros de lama aquosa.


Nem mesmo a viagem em si é encenada com urgência. Os três homens parecem cobrir apenas algumas centenas de metros, uma vez que deixam a cidade (com uma usina nuclear proeminente em seu horizonte) onde o filme começa. A última parte da jornada se passa em um grande cano de esgoto com vazamentos, onde os personagens procedem hesitantemente e em silêncio.




Segundo o próprio Tarkovsky, cada um dos personagens foi construído a partir de uma visão de mundo: O Escritor, inspirado na pragmática; O Cientista, na racionalidade; e o Stalker na poética. E a Zona, também segundo ele, representa um bosque, um rio, nada mais.


Stalker é uma obra que maneja de forma instigante e perturbadora a imaterialidade do tempo humano que, além de ser permeado por forças ambivalentes e contraditórias não é de dimensão mecânica, mas sim espiritual.

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