• Thiago Barcellos

"Super Aventuras": um anime tão melancólico quanto inesquecível

Atualizado: Nov 25



Super Aventuras (no original, Manga Sekai Mukashi Banashi), algo como "Contos de Fadas Mundiais", foi uma série de anime produzida pela pioneira Dax Internacional e estreou no Japão no dia 7 de outubro de 1976 e ficou ao ar até meados de 1979.


Normalmente dividido em duas histórias por episódio, as produções eram narradas originalmente por Mariko Miyagi e no Brasil, dublado pela falecida Neyda Rodrigues. E é a voz dessa legendária rádio-atriz brasileira, bastante lembrada por seu trabalho como narradora dos clássicos disquinhos coloridos de histórias infantis, que deram o tom algo lúgubre da animação.


A série exibiu um vasto número adaptações de contos folclóricos, obras da literatura mundial, fábulas famosas e até lendas cubanas e indianas.


Seus primeiros episódios eram versões das fábulas de Esopo, dos contos de Grimm e

de Hans Christian Andersen.


Na segunda temporada, os roteiros se abrangeram no intuito de dar espaço para outros tipos de histórias, incluindo adaptações de Frankenstein, Robin Hood e até da ópera Carmen, de Bizet.



Enquanto os estúdios Disney apresentavam versões mais romantizadas - e infantis - de alguns desses mesmos contos, muitas das histórias narradas em Super Aventuras seguiam um caminho mais digamos, sorumbático, bem mais próximo das fábulas originais.


Para além de seu bizarro visual, Super Aventuras curiosamente estava completamente destoante das tendências da animação da indústria japonesa nos anos 70.


A série tinha como ponto alto uma fortíssima carga dramática, que apinhava as narrativas com uma trilha preocupada em mexer com a emoção das crianças, característica bem pouco marcante de alguns animes da época.


A nostalgia da animação conta, claro, mas o que mais chamava atenção à época eram as lembranças marcantes das histórias que eram, em suma, muito tristes.


O infortúnio já se iniciava no prelúdio. Uma bruxinha tinha o balão extraviado pelo ar e passava mais da metade da introdução cabisbaixa, em lamúrias totais. Nem o suposto namorado parecia conseguir consolá-la.


Super Aventuras era diferente do que se via até então - mesmo em uma época em que a exibição de animes era uma augusta raridade no Brasil. As personagens de quase todos os episódios são humanas. Humanas e críveis. Pode parecer sentimentalismo fácil, mas há sim uma depressão centenária, quase milenar nessas adaptações.



Num episódio em especial, a clássica história de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas, gira em torno de uma Alice estranhíssima, tagarela e que beira a dupla personalidade.


Nesse capítulo, como se não bastasse, o roteiro desconstrói a história original fazendo com que certos personagens e seus dispositivos narrativos fossem cortados ou combinados. O Gato de Cheshire, por exemplo, só aparece no final do episódio como uma espécie de ilustração de livro, embora seja animada.


Esta versão, além de suas imagens psicodélicas e trilha de disco music, é especialmente estranha por seus designs de personagens escuros e grotescos, com um Chapeleiro Louco esverdeado como um cadáver, e uma Duquesa que parece ser feita de madeira podre.


No Brasil, o anime foi exibido pelo saudoso Clube da Criança na TV Manchete em 1984 e, posteriormente, pela TV Cultura em 1989.


As adaptações de contos e fábulas clássicas de Super Aventuras certamente não foram produzidas para que o estúdio japonês Dax se perpetuasse e pra ter fama, glória, dinheiro, essas coisas comezinhas da vida. Afinal, como um anime anticonvencional e nutrido do mais sombrio dos estofos humanos poderia fazer sucesso? Aqui é tudo muito trágico e sem qualquer muleta psicopedagógica para os espectadores infantis. E é inesquecível exatamente por esse motivo.

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